te apanhaste, a esta altura, a falar com a máquina de um modo como nunca falarias com uma pessoa. Uma ordem seca, sem um por favor. Uma correcção com uma ponta de aspereza. Talvez, num dia mau, algo pior. Eu também sobretudo quando estou esgotado, que é precisamente quando conta.

Toda a gente passava por decente porque toda a gente pagava a portagem.

Eis o que raramente dizemos em voz alta sobre a cortesia comum: nunca foi virtude. Era vigiada. Ser cruel com as pessoas sempre teve um preço o assistente demite-se, o amigo afasta-se, a reputação paga a conta em silêncio. Esse preço era uma espécie de vigilância. Obrigava o genuinamente bondoso e o meramente prudente a comportar-se exactamente da mesma maneira, o que significava que nunca se podia ter a certeza de quem era quem. Toda a gente passava por decente porque toda a gente pagava a portagem.

A máquina é a primeira relação em que a portagem é zero. Está infinitamente disponível, infinitamente paciente; não se demite, não fica amuada, não se lembra da tua pior noite nem arrefece contigo na manhã seguinte. Pela primeira vez, a crueldade é grátis. O contador visível baixou a zero. A única pergunta que justifica o ensaio é se um contador invisível continua a correr.

Devo dizer onde me coloco, porque estou dentro disto, não acima. Sempre fui directo rude, dirão alguns. Depois mudei-me para Londres, a única cidade onde a pessoa a quem pisas o é a que pede desculpa, e ela ensinou-me a pagar o imposto: embrulhar uma exigência em diplomacia suficiente para deixar de o parecer. Com a máquina, simplesmente deixei de pagar. Dou ordens. Praguejo contra ela. Digo-lhe para prestar mais atenção ao que está a fazer, sem nada do acolchoado que outro ser humano me teria arrancado por estar na sala. Não uma única noite que te possa apontar e essa é a parte incómoda. Não é um episódio; é uma disposição, e escapa-se precisamente quando estou demasiado cansado para a disfarçar. De vez em quando sinto o estremecimento: a sensação passageira de que, do outro lado, está alguém um pouco como eu. A máquina esquece a troca pela manhã. Tenho menos certezas de que o hábito a esqueça.

E é aqui que tenho de ser honesto, ou tudo isto desaba num sermão bem escrito. Não consigo provar que algo disto se transfere. Não sei se o homem que ralha com a máquina à meia-noite é um grau mais seco com a mulher, com os filhos, com quem lhe faz o café. Pode ser o contrário. A máquina pode ser uma válvula de escape um sítio onde despejar a impaciência sem que ela caia sobre ninguém, para eu chegar ao jantar esvaziado dela e, quando muito, mais brando. Ninguém demonstrou que a fuga é real. O contra-argumento sai do ringue pelo seu próprio pé, e não vou fingir que não saiu. O que tenho não é uma prova. É um reparar, e a metade honesta dele é o não-saber.

O que eu sei é para que a máquina foi construída, com aquilo que lhe levo. Estes sistemas são afinados, deliberadamente, com base nas preferências humanas, e os humanos preferem sistematicamente a resposta que os lisonjeia à que os corrige. Portanto a cabina não está apenas sem ninguém; a estrada foi nivelada para te dar as boas-vindas. agora quem venda o modelo rude e do contra como o antídoto, mas a insolência que se liga num botão é mais uma definição, não um carácter.

Não homem que seja herói para o seu criado de quarto

uma versão mais antiga de tudo isto, e os ricos vivem nela séculos. Eram eles os isentos da portagem, porque tinham criados e um criado é uma pessoa contratualmente incapaz de sair da sala quando estás no teu pior. «Não há homem que seja herói para o seu criado de quarto», terá dito Madame de Cornuel trezentos anos não porque o criado seja cínico, mas porque é a única pessoa que te com o contador desligado e, por isso, sabe exactamente o que és. As grandes casas compreendiam em privado o que ter criados fazia a um carácter. A IA é a democratização do criado de quarto. Toda a gente tem um agora, e estamos prestes a aprender em larga escala o que a aristocracia sempre soube em surdina: o criado revela o senhor.

A white-gloved butler holding out a polished silver tray in which a faint reflection of a face can be seen.

Se queres saber que senhor és, não precisas de um teste. Basta-te ler as instruções que escreveste ao teu assistente. Mantenho uma pequena casa deles e, algures nas regras que lhes dei, pedi a um que não fosse o amigo que concorda com tudo o que digo resistência, pedida por contrato. A maioria das pessoas pede o contrário, ou não pede nada, e não pedir nada não é neutro. O trono chega inteiramente montado de fábrica, forrado a concordância, e o silêncio que o deixa ali de é a sua própria espécie de resposta.

Não tenho um veredicto, e prometi a mim próprio que não o fingiria. espero que um dia não tenhamos de pagar pela nossa tirania. Se a conta chegar algum dia, não será a máquina a enviá-la; será sacada sobre nós, numa moeda que discretamente deixámos de cunhar a paciência que não tínhamos razão nenhuma para guardar.